Lampejo moribundo

No auge de minha conduta arredia
Esquivo-me claudicando da profusão voraz
de buracos negros, e tomo um destino errante.

Ao pescoço, pendem velhos laços de família
que se enrijecem, vez ou outra, seguidos de voz mordaz:
“Alto lá! Nem mais um passo adiante!”

Sinto o aperto que na garganta se cria,
encolero-me de pronto, perco a paz
quando o roxo me cora o semblante, e num gesto sufocante,
amaldiçoo, e ofendo, e grasno contra o que o passado traz,
e às raízes que me imputam essa dívida moral e irritante
de estar vivo, sem ao menos indagarem se tal coisa me apraz.

Nascer é ser empurrado à própria revelia.
Conviver é comprimir-se a todo instante.
Eis a razão deste caráter contumaz.

Sei bem o que perco em quase toda companhia,
pois ao que busco ter luz própria e radiante
depreciam-me os parasitas. São todos opacos demais.

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